
DESENHO DE PATRÍCIA MELLO
Nasci e cresci em uma cidade chamada Sapucaia do Sul, interior de Porto Alegre, divisa com outras cidades conhecidas como Esteio e São Leopoldo. Uma cidade muito simpática e hospitaleira, onde tenho muito orgulho de morar e mais, tenho orgulho de estar até o dia de hoje, 29 anos, morando na mesma rua, no mesmo bairro e tendo os mesmos vizinhos.
Com essa querida cidade aprendi muitas coisas, principalmente na minha infância e adolescência, onde a curiosidade era maior e cada descobrimento uma conquista. Tenho muitas histórias para contar e situações vividas que até hoje estão guardadas na minha memória e no meu coração. Lembranças essas, que ninguém jamais poderá apagá-las, pois foram momentos de pura aprendizagem.
Uma dessas histórias e também a que mais me marcou, irei relatar agora para que todos ao lerem esse texto, possam viajar comigo no tempo e no local, onde tudo aconteceu. Há mais ou menos 18 anos atrás existiu em Sapucaia do Sul uma casa amarela, muito antiga, com telhado marrom e sem jardim, que ficava as margens dos trilhos do trem, afastada de outras casas e da vizinhança que ali existia. Quando passeava de trem com a minha mãe, a mesma sempre olhava aquela casa e contava que a mesma era assombrada, que nela existiam fantasmas, principalmente o espírito de uma menina que ali tinha falecido. A maioria dos moradores da cidade conhecia a história e acreditavam, e quando as pessoas passavam na frente da casa era sempre o mesmo assunto. Ninguém queria chegar muito perto, pois diziam que ali escutavam vozes, gritos e gemidos.
Confesso que sempre morri de medo da casa, da menina e da história contada pela minha querida mãe, e quando completei 15 anos fui estudar em uma escola que ficava muito perto dessa casa assombrada, chamada Escola São Lucas. Nos primeiros dias de aula, conheci uma menina muito especial e ficamos amigas. Como só falávamos no colégio, dos estudos e dos trabalhos das aulas, pouco sobrava tempo para conversarmos sobre os assuntos como nossa família e das brincadeiras que gostávamos. Um dia precisávamos estudar para uma prova e marcamos nosso encontro na escola. O combinado era estudar na casa dela e ficarmos durante toda a tarde passando a matéria da prova. Pois bem, cheguei no horário e ela já estava esperando, então fomos até a sua casa. Quando fui chegando perto da casa da minha amiga, comecei a suar e a sentir que algo de estranho estava acontecendo e quando parei, lá estava eu em frente há casa assombrada, prestes a entrar.
Não tive outra escolha a não ser entrar na casa, pois ali morava minha colega de turma, minha amiga e eu tínhamos combinado de estudar juntas, não poderia demonstrar que estava com medo. Assim, entrei na casa e quando já estava lá dentro, umas das primeiras coisas que visualizei foi uma sala gigante com um enorme piano no centro. Os quartos eram grandes e com móveis antigos, cheios de poeira. Mas minha colega, sua mãe e avó dormiam no mesmo quarto por terem medo durante a noite. E assim ficamos quase toda a tarde passeando pelos cômodos e conversando sobre o medo que a maioria das pessoas tinham de se aproximar, por causa dessa história de assombração.
Ali, naquele momento percebi o quanto minha amiga era carente de amizades e o quanto era importante não demonstrar medo, e sim carinho, afeto e amizade. Foi assim que deixei a história de assombração de lado e passei a visitar minha amiga, quase que diariamente. Hoje, não temos mais contato, mas sei que fiz minha amiga feliz por alguns anos e que a nossa história ficará para sempre em nossos corações como uma lição de amor e amizade. A casa assombrada não existe mais, somente as lembranças que os morados de Sapucaia do Sul guardam e as histórias que com certeza passam de geração para geração.
PATRÍCIA MELLO